São Paulo/SP - Brasil, terça-feira, 27 de julho de 2021
O Ousado Caminho das Roupas de Vinil
Poucos imaginam, mas as vestimentas em látex trilharam um caminho de evolução que o submundo hoje faz parte da história e seu futuro se projeta...

Poucos imaginam, mas as vestimentas em látex trilharam um caminho de evolução que o submundo hoje faz parte da história e seu futuro se projeta nas passarelas de moda e em muitos tapetes vermelhos de premiações. Bem antes das roupas em látex passearem pelas passarelas da Gucci, Vivienne Westwood, Balmain, Thierry Mugler e Raf Simons eram peças de roupas que ocupavam espaços ligados à censura ou sigilo.
O látex também era muito significativo para imagens que retratavam o futuro como na cultura cyberpunk, porém é bem antigo e também orgânico a compreensão de seu percurso histórico. Oriundo de um líquido leitoso que escorre após a lesão do tecido de certas plantas e árvores, essa seiva coagula e endurece formando uma massa impermeável e elástica num processo que faz muitos confundirem com o PVC conforme nos diz um designer nova iorquino da empresa The Baroness, uma das mais pioneiras no assunto. Alguns acreditam que ele seja brilhante, justo, sexy e barato. Mas o látex de borracha natural é totalmente vegano, sustentável, frágil e difícil de trabalhar.

Sua histórica origem começa bem antes, mais precisamente Mesoamérica em 1600 A.C, nas culturas maia, asteca e olmeca (olmeca é uma palavra asteca, que significa “povo da borracha”) e passa pela revolução industrial onde o látex se tornou um recurso colonial extremamente valioso. A América do Sul continuou sendo a principal fonte de látex até 1876, quando Henry Wickham, em um ato de pirataria botânica, contrabandeou 70.000 sementes de seringueira amazônica do Brasil para a Inglaterra. A viagem da matéria prima encontrou ambientes mais propensos como Sri Lanka, Indonésia e Malásia, hoje considerados importantes pólos de produção de borracha natural.
As vestimentas em látex também foram importantes para confecção de roupas de proteção para medicina e para guerra. Fiona Jardine, uma historiadora da vestimenta da Escola de Artes de Glasgow explica seus usos no século 19: “Quando colada a tecidos pré-existentes, a borracha melhorou a funcionalidade de sobretudos, gorros, polainas e protetores de vestido, em viagens, congregações públicas e a vida urbana tornou-se mais prevalente no oeste” e segunda a The Baroness, o látex, vinil e outras roupas de borracha entraram no campo das roupas sensuais por terem um aspecto, cheiro, sabor e toques únicos.
E com a invenção da capa de chuva Mackintosh em 1824, selou a imagem da comunidade fetichista com a clássica imagem de que poderia conter a nudez por debaixo das capas de chuva publicadas pelo periódico London Life em 1920 e assim, fundar a Sociedade Mackintosh, uma das primeiras organizações fetichistas modernas da Inglaterra, aumentando os círculos fetichistas que viam a adesão ao movimento como um tabu novo atribuído às pessoas perversas que só foram freadas com a recente onda conservadora no pós segunda guerra obrigando os adeptos à clandestinidade.

A roupa só voltou ao nível de normalidade quando o estilista John Sutcliffe fundou sua marca AtomAge, e criou o primeiro macacão do mundo - o protótipo de roupa de fetiche de borracha. A idéia primária do estilista era criar roupas resistentes às condições climáticas para motociclistas, porém, os designs eram aprovados e adotados para usos privados ao invés de públicos. Até mesmo na cultura pop a roupa de vinil foi adotada para a série de espionagem para TV "Os Vingadores" (1961) na qual a personagem Emma Peel (interpretada por Diana Rigg) vestia um macacão baseado em Sutcliffe tornando o apelo popular suficiente para se fundar a AtomAge Magazine em 1972 com imagens artísticas e imagens de bondage, o suficiente para revolucionar as tendências da moda londrina.
➙ A Chegada do Movimento Punk
A AtomAge Magazine cooptou um dos seus nomes mais expressivos da subcultura britânica, o empresário Malcom McLaren e a estilista Vivienne Westwood, os verdadeiros pais do movimento punk. A boutique "Let It Rock" foi rebatizada para "sexo" em 1974 com letras garrafais de borracha rosa na fachada do estabelecimento. Era a deixa que o movimento punk necessitava para sua assinatura onde o uso de roupas fetichistas fossem agora um símbolo da liberdade e continuasse sua vida com performers e clubes noturnos e clipes de bandas punk e pós punk como da banda Sex Pistols ou da cantora Siouxsie Sioux, e mais tarde apareceu em videoclipes de sucessos como de Billy Idol: White Wedding e Frankie Goes to Hollywood's Relax.
Na mesma época, Theresa Coburn começou a desenhar roupas de látex para a loja BOY da Kings Road, e peças sob medida para o artista gótico Johnny Slut (da banda Specimen) que queria fugir da idéia das máscaras de gás, mas ainda manter um collant delineando o corpo. Com sucesso, a década de 1990 reacendeu na moda e na cultura os valores do vinil em filmes como Edward Mãos de Tesoura (1990) e Batman Returns (1992) de Tim Burton eternizando a mulher gato de Michelle Pfeiffer, e se perdurou em outros filmes como Matrix (1999), As Panteras (2000) e Tomb Raider (2001) além de marcar participação também na música como nos videoclipes de Michael Jackson, Madonna, Spice Girls e Britney Spears.
➙ Nas Passarelas
Como tudo que dita as tendências no mundo cultural é abraçado pelos desfiles de moda, grandes estilistas puderam aproveitar o período pra criarem peças que rodaram as principais passarelas pelo mundo. O látex enfeitou as passarelas de Marc Jacobs, Chanel, Dolce e Gabbana, Valentino, Anna Sui, Jean-Paul Gaultier, Christian Lacroix e Alaïa, entre outros. A Rubberwear (moda da borracha) se tornou um símbolo do empoderamento feminino que transmitia o poder a quem usasse, como é o caso de Lady Gaga e de quem também desenha os figurinos, é o caso da estilista de Gaga, Atsuko Kudo, que desenha os modelos de vinil. Embora outros tipos de tecido ganharam seu espaço na sociedade como é o caso da lã, algodão e até o couro, que ganharam espaços no cotidiano atingindo a normalidade, as vestimentas de vinil ainda causam um rubor e marcam presença.
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